Cinco perguntas para Nilson Galvão

1) Há algum significado nesta coleção e neste seu livro? Algum objetivo?

Nilson Galvão – A coleção é um achado, porque vai contra a maré e prova que há, sim, espaço para o mercado editorial longe do Sudeste. E demonstra isso da melhor maneira possível, com autores que já estão na estrada e os que estão começando, promovendo encontros de gerações, estilos, tendências. E me empolga também o seu aspecto gráfico, extremamente bem pensado. O meu caso é de certa forma emblemático porque sou um autor pouquíssimo conhecido, meus textos foram publicados basicamente na internet e, de repente, pelas mãos de Claudius Portugal e Maria Sampaio, o selo Cartas Bahianas edita em papel esse exemplo de literatura feita exclusivamente em blog. Tinha definido que ia publicar no espaço ‘virtual’ o que fosse produzindo, sem muita pretensão, mas o resultado não poderia ser mais concreto, e pleno de significado! Quanto aos meus objetivos, nessa ordem: curtir o livro, divulgá-lo bastante, seguir nessa linha da afirmação como autor, que é tão difícil. E, claro, continuar a bater ponto no blog, que tem me proporcionado tudo isso!

2)Sendo cartas, é difícil encontrar correspondência do que se quer dizer em palavras? Correspondência não só na linguagem, mas também leitor? Vamos lembrar que correspondência está na raiz de cartas. Cartas Bahianas.

Nilson Galvão – Às vezes, sinto que, de certa forma, primeiro ocorrem palavras, frases, encadeamentos de frases, para depois encontrar correspondência com o eventual sentido que eu, ‘primeiro leitor’, queira dar. Parece coisa de doido, do tipo ‘ouço vozes’, mas frequentemente vêm situações assim. É de fato mais difícil quando faço o caminho contrário: tentar construir algo com palavras à procura de um sentido pré-estabelecido. Mas vi outro dia um autor, não lembro quem, dizer numa entrevista, que funciona assim mesmo: em uma esfera talvez inconsciente você vai criando as coisas, a partir de leituras, associações de ideias etc, e uma hora aquilo ‘eclode’. Nem inspiração nem transpiração: eclosão. Gostei dessa ‘leitura’! Com o leitor é ainda mais misterioso: quem é? O que espera? O que pensa? Acho que desse ponto de vista o livro me deixa no mesmo ponto que o blog: uma espécie de perplexidade, de curiosidade quase infantil sobre quem vai ler, como vai reagir, o que entenderá, que leituras fará – mais ricas que as do autor, talvez? E se o leitor, por outro lado, não concorda? Vira a página, fecha o livro, sai do blog? São cartas enviadas para pessoas que, na maioria das vezes, não darão qualquer retorno direto, embora você não possa descartar o impulso de Holden Caulfield, o personagem de Salinger, que tem vontade de procurar o autor e parabenizá-lo quando lê um bom livro! Mas estou curioso para saber, agora, de que forma esse meu livro-carta será correspondido!

3)Escrever é conseqüência de sua vida – pensamento, sentimento, sensações, olhares, atos, etc, ou o que é esta realidade para sua escrita? Ou que realidade é esta que vocês estão escrevendo? E nesta escrita há uma construção ou reconstrução disto que chamam realidade? Ou da escrita? E a Bahia nisto?

Nilson Galvão – Consequência total com a minha vida: a ponto de ficar claro, pra mim, que flui melhor quando faço ioga e as minhas caminhadas. Aliás, deve ter um espírito poético qualquer entre a Praia da Paciência, no Rio Vermelho, e a Barra, me soprando coisas, porque 80% das ideias surgem nesse trajeto das caminhadas. Levo o celular com gravador de voz pra ficar gravando o que ocorre. Não é que seja programático, panfletário, etc, mas o que escrevo funciona sempre como uma espécie de investigação em torno das minhas questões. Tipo: isso me ajuda a entender essa coisa maluca que é a vida, e em muitos níveis: do mais sagrado ao mais prosaico. Mas é muito difícil exprimir ‘a realidade’ e não tenho muita ilusão quanto a isso: talvez ‘roce’, às vezes, mas em geral é como se estivesse tateando, percorrendo a orla, como nas caminhadas a partir do Rio Vermelho. O outro lado: o que escrevo é a minha realidade, tanto quanto a minha vida pessoal, profissional. Exprime o que eu sou, até as muitas limitações. E a minha origem: da Bahia interior, no sertão, onde talvez faça mais sentido essa coisa meio religiosa de buscar sempre um sentido maior, etc.

4) Algo mais geral: Escrever é criação ou artesanato?

Nilson Galvão – Para mim o artesanato existe, cada vez mais, na medida em que vou amadurecendo o meu próprio método de escrever, mas a criação prevalece se considerarmos criação aquilo que falei lá atrás: uma espécie de atitude quase passiva, de deixar que as ideias fluam. O ‘método’ consistiria em pegar esse fluxo e, cada vez mais, tentar burilar os seus contornos, aproveitar os impulsos e dar uma ajustada aqui, uma polida ali. É criação e artesanato!

5) Enfim: O que é este seu livro? O que espera ou não há mais esperança?

Nilson Galvão – Este meu livro, sinceramente, é uma grande e grata surpresa. A vontade de publicar sempre existiu: participei de dois concursos literários e este ano fiquei com uma menção honrosa. Fora isso, era uma cogitação distante tomar iniciativas como ir atrás de editoras para ‘vender’ o peixe, ou bancar uma edição com dinheiro do próprio bolso. Era ‘escritor de gaveta’ até dois anos e meio atrás. Fiz o blog pensando que era justo que os amigos, a família, meu filho soubessem que havia essa dimensão na minha existência. O livro pelas Cartas Bahianas extrapola essa expectativa, e muito! Sinceramente, não sei o que espero: é muito recente, a despeito dos 40 anos, essa coisa de ser chamado de escritor e me reconhecer como tal. Tendo em vista a maneira como as coisas se deram, posso dizer que há muita esperança, porque ela não tem tamanho: o que vier é lucro!

(perguntas enviadas pela P55)

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