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Lançamento pode resultar em assassinato

Raskolnikof foi convocado. Aeronauta pode ir, literalmente, para o espaço. Tudo começou a ser tramado ontem, no lançamento. Enquanto não chegam as fotos, enquanto não chegam os relatos, acompanhe esta autêntica crônica de um assassinato anunciado abaixo ou veja no original aqui http://wwwaeronauta.blogspot.com/2009/09/as-irmas.html

aeronauta
Quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

As irmãs

E a menina, desse jeitinho aí, vai ao lançamento de Maria e Nilson. Junto com a irmã. As duas cresceram, mas o jeito delas é o mesmo. A menina vestida de verde, eu, sempre afundando dentro da parede, sem saber direito o que fazer com as mãos. A irmã, ladina, estala seus dedos, em festa. Ela é profundamente especial: veja só o seu olhar: arteiro, espirituoso, como quem acabou de chegar de uma corrida de guerrô. Os olhos tristes da outra são uma condenação. O espanto é uma sina. Só escorando na parede é possível estar para os outros. É no lançamento de Maria e Nilson, as duas irmãs juntas, que a vestida de verde, eu, descobre os malefícios do nome que ela mesma lhe colocou a fim de mais afundar na parede. Descobre que agora só Aeronauta vive, a monstra. Aeronauta eclipsou o seu outro nome, roubou a cena. Nos dois livros, a dedicatória impressa não está para ela, eu, mas para a Aeronauta. Ela sente ciúmes, inveja, ódio dessa impostora que inventou. A irmã, na festa inteira, tenta ajudá-la, mas ela continua se comportando como nessa foto: buscando a parede como apoio frio. A irmã, risonha e espirituosa, tenta ampará-la, tirá-la do meio das estantes da livraria, mas ela quer mesmo é entrar num livro daqueles, de preferência de um que nunca será vendido. A menina de verde tem dentro de si o demônio clariceano, e quer matar uma das duas. Não a irmã, claro, a irmã será imortal nas suas mãos. Ela quer matar esse personagem que ganhou tanta vida própria a ponto de morar nas dedicatórias que seriam suas. O mal que habita o mundo infantil é genuíno, não se prendem crianças por assassinarem gatos. Ou se mata o personagem, ou se mata quem criou o personagem. Não há mais espaço para uma figura e uma sombra, uma sombra e uma figura. Como realizar o crime perfeito? Dostoievski me espreita, cúmplice, e eu pego na estante Os irmãos Karamazovi. Imagem: “As irmãs”. Década de 70.

Retrato de Mozart Santana.