Prévia Continhos

continhos 2

Uma ladeira, quase em pé. Dirijo o automóvel, o joelho encosta no painel. Planando… a bolsa cai. Areia, quase atolando. O militar me estende – devolve. De militar, não quero nada! nem minha bolsa. Aos meninos jogando baba o militar atira minha bolsa e toma a bola. Atrás do carro menino se agacha (me chama), eu me agacho: a bolsa — sem carteira. O arlequim me olha, pé sobre a carteira, aponta: é sua, matei o militar. Segue imponente, em seu vácuo o meu automóvel desliza. Ele perde a elegância de arlequim, jornal no sovaco, sapato acalcanhado, capenga. Perco o vácuo, o carro desaparece, minha roupa de colombina rompeu-se toda. Roubo o jornal dele, leio.

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continhos 3Ele põe um bracelete (em mim). De ouro besouro. De lata barata. Gravado meu nome. Beijos. Abraços. Esfregaços. Auditório do Colégio. De mãos dadas “corremos corredores em silêncio”. Para tomar um café. Na cantina – ou no quintal.

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continhos 4Casa da infância. Amplas e várias salas. Quartos imensos. Um só banheiro. Tia doente quer dormir em paz: no chão. No quarto maior-de-todos-fura-bolo-cata-piolho esteiras, lençóis, cobertas, colchões. Cachorros lambem-cheiram a doente. Mijam, nela, ela se arrasta, se vira – muda. Muda sem palavras muda de lugar. Espio. A tia chora. Me despeço. Chora mais. Choramos. Beijo a testa da tia. Acalma-se. Nem ela, nem eu. Há muito nada mais existe. Nem mãe, nem pai. Avós. Nada. Nem os cães. Restaram os amigos.

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continhos 5Orestes Barbosa. Caetano Veloso. Silvio Caldas. O hard-disk da cabeça esgotado. Pisei em astros desastrada, tropecei em livros distraída. Em casa, os livros do avô se perderam entre as cartas do bisavô. Em uma fazenda qualquer do sertão esquentaram o frio da madrugada. Sem um scan que limpe, nem desfragmentador para encontrar erros, arrumar. Tias, avós, pai, a juntar móveis, livros e papéis. Sem cavalo preto que fuja a galope. Haja cigarro —e pedras. Mãe distribuiu alegrias e cedo se foi. Continuei a sina de juntar papéis, livros, móveis. E a alegria?


continhos IUm dia ele foi embora. Ela espera. Ele vive com outra. Ela espera. Às vezes ele aparece no décimo primeiro andar. Apenas palavras. Ela atentar, ele a negar beijos, abraços, sequer um roçar de pele. Recostados – ela nem lembra se assistindo tv ou escutando música: os braços se triscam. Sem oferecimentos nem recusas. Amaram-se com o amor inteiro que se negaram. Treparam de cima pra baixo e de baixo pra cima em gozos intensos, profundos, molhados.

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continhos 6Saiu do corpo. Diferente de antes quando sobrevoando o vale do Paraguassu foi a Maragogipe —tranquilamente, agora sentiu medo. Não queria sair. Uma força maior, qual turbina de jato, lhe sugou do corpo. Sequer lhe deu tempo de sobrevoar a si mesma rodeando o quarto. Transpondo tudo —não lhe foi dado decidir, quis ir ao Rio de Janeiro ver Jussara. Não foi. Por entre azuis e verdes a se fundir e separar em velocidade alucinante: andou. Às vezes, sobrevoou. Em leve dançar correu mundos. Lentamente reviu o corpo, adentrou. Dormiu gente. Acordou macaca.

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3 Respostas para “Prévia Continhos

  1. No livro ou aqui, os contitos são sempre impagáveis! Sintéticos: energia concentrada! E tb tô gostando cada vez mais dos desenhos!!!

  2. De quem são os desehos?

  3. Pingback: Fuxico na reta final XII: Nelson « Prosa & Poesia

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